Meu filho faz terapia: eu vou saber tudo o que ele fala?

Quando uma criança ou um adolescente começa a fazer terapia, é bem comum que os pais tenham dúvidas sobre a sua participação nesse processo.

  • “Ela vai me contar tudo o que ele falou?”
  • “Como eu vou saber se a terapia está funcionando?”
  • “Eu posso conversar com a psicóloga?”

Todas essas perguntas são válidas e fazem sentido. Quando falamos de crianças e adolescentes, os responsáveis ocupam um papel fundamental no cuidado e no processo terapêutico. Mas existe uma parte importante da psicoterapia que também precisa ser preservada: o sigilo.

Não são apenas os adultos que têm direito ao sigilo. Crianças e adolescentes também têm.

O fato de um menor depender legalmente de seus responsáveis não significa que tudo o que ele disser em sessão de psicoterapia será compartilhado com os pais.

O Código de Ética Profissional da Psicologia estabelece o dever de preservar o sigilo profissional e, especificamente no atendimento de crianças e adolescentes, orienta que seja comunicado aos responsáveis apenas o que for essencial para promover medidas em benefício da pessoa atendida.

Isso não significa que toda semana os responsáveis receberão um relatório com o que o paciente disse ou não disse.

Se cada coisa dita na sessão fosse compartilhada com os pais, seria muito difícil garantir um espaço no qual aquela criança ou adolescente pudesse se sentir seguro e falar livremente. Essa confiança é uma das chaves mais importantes para o processo terapêutico.

Mas, se os pais não sabem o que o filho falou em terapia, então eles ficam de fora?

Também não. Garantir o sigilo não significa excluir a família do processo terapêutico.

Principalmente na infância e na adolescência, compreender o contexto em que aquele indivíduo vive é muito importante. Escola, família, amigos, rotina e mudanças recentes podem auxiliar na compreensão do que está acontecendo. Por isso, ao longo do acompanhamento, podem e devem existir conversas com os responsáveis.

A diferença está no tipo de informação que é compartilhada.

Em vez de reproduzir conteúdos específicos ditos em sessão, a psicóloga pode conversar sobre alguns aspectos mais amplos do processo, necessidades que foram identificadas e mudanças que podem ser importantes fora do consultório.

Por exemplo, pode ser necessário conversar sobre:

  • Dificuldades percebidas na rotina do paciente;
  • Formas de comunicação dentro de casa;
  • Comportamentos que merecem atenção;
  • Mudanças que podem favorecer o desenvolvimento do paciente;
  • Situações nas quais a participação dos responsáveis é importante para o cuidado.

Ou seja, os pais podem participar de forma ativa da terapia sem precisar ter acesso a tudo o que foi dito dentro dela.

Ser responsável por uma criança ou adolescente significa participar das decisões que envolvem o seu cuidado, protegê-lo e oferecer as condições necessárias para o seu desenvolvimento. Mas isso não significa um convite aberto para uma invasão de sua intimidade.

O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e inclui o respeito à intimidade e à vida privada entre os princípios que devem orientar sua proteção.

Na prática, existe um equilíbrio. De um lado, temos uma criança ou adolescente que precisa de um espaço seguro para falar. Do outro, temos responsáveis que precisam de informações suficientes para exercer seu papel de cuidado.

A função da psicologia é manejar essa relação considerando algumas variáveis: idade, desenvolvimento, necessidades daquele caso e, principalmente, o que pode contribuir para a proteção e o bem-estar da pessoa atendida.

Existem situações em que o sigilo pode ser quebrado?

Sim! Ele é fundamental, mas não é absoluto.

Existem situações em que algumas informações precisam ser compartilhadas para a proteção da criança ou do adolescente ou em razão de obrigações previstas em lei.

Mesmo nesses casos, o Código de Ética orienta que o profissional da psicologia compartilhe somente as informações estritamente necessárias, buscando produzir o menor prejuízo possível.

Por isso, desde o início da terapia, é importante que tanto os responsáveis quanto o paciente entendam como funciona o sigilo e quais os seus limites. Combinados sobre comunicação fazem parte da construção de uma relação terapêutica segura.

Uma das formas mais importantes de um responsável participar da terapia é justamente permitir que seu filho tenha um espaço que seja dele.