O que você tem deixado para depois enquanto espera se sentir melhor?
Existe algum mundo em que eu não faria um feat. entre Hamilton e a Psicologia? Acho que não!
A ideia desse texto surgiu enquanto eu pensava em Aaron Burr (sir), personagem de um dos meus musicais favoritos: Hamilton!
Para quem não conhece, Burr é cuidadoso, estratégico e muito observador. Ele não costuma revelar facilmente o que pensa, evita se posicionar antes de entender para onde “o vento está soprando” e parece acreditar que a melhor forma de sobreviver é esperar pelo momento certo.
Enquanto Hamilton vive como se o tempo estivesse sempre acabando, Burr espera. Espera pela oportunidade certa, pela segurança necessária, pelo momento em que agir pareça menos arriscado.
E talvez seja por isso que Wait for It seja uma das músicas que mais me atravessam no musical. Não apenas porque ela é maravilhosa (e a minha favorita), mas porque existe algo muito humano na forma como Burr escolhe viver. Ele não está simplesmente parado; ele está tentando se proteger.
Burr aprendeu a ser cauteloso, a observar antes de agir e a não demonstrar demais ou se comprometer com algo que possa lhe trazer consequências. Em muitos momentos, essa estratégia faz sentido. Ela o ajuda a sobreviver, a evitar riscos e a preservar aquilo que ele considera importante.
O problema é que uma estratégia que nos protege também pode nos limitar! E foi pensando nisso que eu me fiz uma pergunta:
O que temos deixado para depois enquanto esperamos nos sentir melhor?
Quantas vezes dizemos para nós mesmos:
– “Quando eu estiver mais confiante, eu começo”.
– “Quando a ansiedade passar, eu resolvo”.
– “Quando eu estiver mais motivado, eu volto a cuidar de mim”.
– “Quando eu tiver certeza de que vai dar certo, eu tento”.
À primeira vista, parece ser razoável pensar assim. Agir seria muito mais fácil se não precisássemos lidar com sentimentos e emoções negativas (medo, insegurança, ansiedade, vergonha) ou com a possibilidade de as coisas saírem do controle e não acontecerem da forma como nós planejamos.
Seria ótimo se pudéssemos esperar até que todos esses sentimentos fossem embora. O problema é que esse momento pode nunca chegar.
A confiança nem sempre vai aparecer na primeira tentativa, a certeza raramente vai chegar antes de uma escolha importante, a motivação nem sempre vai existir e o medo não vai desaparecer apenas porque não queremos lidar com ele. Enquanto esperamos pelo momento ideal, a vida continua acontecendo.
Esperar não é, por si só, um problema. Existem momentos em que precisamos parar, descansar e compreender melhor o que está acontecendo ao nosso redor. Ser cuidadoso não é um defeito. Nem toda demora é fuga, assim como nem todo movimento é um ato de super coragem.
Hamilton também nos mostra o outro extremo. Agir como se o tempo estivesse sempre acabando, transformar toda oportunidade em urgência e toda decisão em uma batalha também pode gerar consequências significativas nas nossas vidas.
Não precisamos escolher viver como Hamilton ou Burr. Precisamos aprender a perceber quando a cautela está nos ajudando a fazer uma escolha consciente e quando ela está nos impedindo de participar da nossa própria vida.
Evitar também produz alívio. Quando adiamos uma conversa difícil, sentimos o alívio de não precisar lidar imediatamente com o que o outro vai pensar ou falar. Quando desistimos de tentar por medo de falhar, sentimos alívio por não precisarmos encarar a possibilidade de não conseguir. Esse alívio existe; ele é real e talvez seja por isso que repetimos esse comportamento tantas vezes.
O problema é que aquilo que nos alivia no momento presente pode nos cobrar um preço no futuro. A conversa não realizada continua existindo, a decisão adiada permanece ocupando espaço… A vida que desejamos construir vai sendo empurrada para um momento em que, finalmente, estaremos prontos. Mas… será que um dia, de fato, estaremos?
Burr espera porque acredita que seu “momento chegará”. Ele observa outras pessoas se posicionarem, ocuparem espaços e construírem seus próprios caminhos. Enquanto isso, ele espera e tenta encontrar o momento certo para agir.
Existe algo doloroso nisso.
Enquanto tentamos evitar a possibilidade de perder ou falhar, também perdemos a possibilidade de construir aquilo que desejamos viver.
Durante muito tempo, podemos acreditar que precisamos resolver tudo o que sentimos para, só assim, conseguirmos agir. Só que a vida raramente funciona nessa ordem. Muitas vezes, não é porque deixamos de sentir medo que agimos. Agimos com medo mesmo!
Existe uma diferença entre escutar o que sentimos e entregar completamente a direção da nossa vida aos nossos sentimentos momentâneos. O medo pode sinalizar que algo é importante, desconhecido ou arriscado. A ansiedade pode surgir em situações que envolvem mudança ou incerteza. A insegurança pode aparecer quando tentamos fazer algo pela primeira vez.
Essas experiências não precisam ser tratadas como inimigas. Mas também não precisam se tornar as únicas responsáveis pelas nossas escolhas.
Eu convido você a se perguntar:
O que eu tenho deixado para depois enquanto espero o momento perfeito chegar?
Às vezes, precisamos apenas tomar cuidado para que nossa vida inteira não se transforme em um eterno Wait for It.