Mudar de caminho também é uma forma de se encontrar

Durante muito tempo, eu acreditei que escolher um caminho profissional era uma sentença. Algo que eu só poderia escolher uma vez e nunca mais voltar atrás. Que eu precisaria permanecer nesse caminho para sempre. 

Talvez porque algumas decisões que tomamos, principalmente aos 16 ou 17 anos, pareçam ser grandes demais. Temos maturidade suficiente para escolher com cem por cento de certeza o que faremos para o resto da vida nessa idade? Escolher uma graduação, construir uma carreira e investir anos da vida em uma profissão? Tudo isso pode dar a sensação de que mudar de direção seria desperdiçar tudo o que veio antes. 

Hoje eu penso diferente… 

Antes de ser psicóloga, eu fui advogada. Cursei direito, me formei e atuei na área durante alguns anos, mesmo sem gostar. Lutei contra muitos medos, incertezas e ansiedade durante esse período, mas não é uma parte da minha história que eu desejo apagar ou tratar como um erro. O Direito me ensinou, me esticou e me transformou na pessoa e na profissional que eu sou hoje. 

Mas, ainda assim, em determinado momento, eu percebi que aquela trajetória já não se conectava com a vida que eu queria construir e que permanecer nela se tornava cada vez mais insustentável.

Não foi uma percepção repentina, que veio acompanhada de uma certeza absoluta do que viria pela frente. Na verdade, foi um processo. Um processo de aceitar que, para sair de onde doía, eu precisava sair da minha zona de conforto e pagar o preço de escolher por mim (e não pelos outros). 

Mudar de carreira parecia, ao mesmo tempo, algo muito assustador e necessário. Recomeçar significava que eu teria que voltar a ser estudante (embora a concurseira aposentada que habita em mim ame essa parte), reorganizar minha rotina, lidar com comparações e aceitar que as respostas eu encontraria no caminho. Também significava abrir mão da segurança de uma profissão promissora, afinal… Direito e Medicina sempre foram as opções mais almejadas por todos, não? 

Foi assim que a psicologia surgiu na minha vida. Ou talvez, de forma mais honesta, foi assim que eu tive coragem de caminhar em direção a ela. 

Quando eu entrei na segunda graduação, eu não comecei do zero. Levei comigo tudo o que eu havia vivido antes. Recomeçar não apagou minha trajetória anterior, apenas deu a ela um lugar novo dentro da minha história. 

Ao longo desse caminho, eu compreendi que mudar de rota não significava necessariamente que eu tinha escolhido errado, até porque algumas escolhas fazem sentido para a pessoa que somos em determinado momento. Depois, a vida muda, nós mudamos e aquilo que antes era uma certeza pode deixar de ser tão certo assim. 

Existem experiências que não foram feitas para durar eternamente, mas que ainda carregam uma função importante na nossa vida. Elas nos ensinam o que precisamos aprender e, algumas vezes, também nos ajudam a perceber o que não queremos mais. 

O problema existe quando não nos permitimos reconhecer quando uma direção deixou de fazer sentido. Muitas vezes, continuamos seguindo porque já investimos tempo demais, porque temos medo do que os outros vão pensar ou porque não sabemos o que vem depois da mudança. Permanecemos não porque queremos estar naquele lugar, mas porque sair dele parece difícil demais.

E, sim, de fato, pode ser difícil. Não quero romantizar ou fingir que as dificuldades não existem. Mas… e se tentarmos mesmo sendo difícil? Não é como dizem: “o não nós já temos”?

Escolher uma vida mais conectada com os nossos valores e com o que acreditamos não significa que viveremos sem medo, sem insegurança ou sem desconforto. Algumas das decisões importantes que tomamos vêm acompanhadas juntamente por eles. 

Ter coragem não significa que você não tem medo. Ter coragem é aprender que ele pode estar presente, mas não governar suas escolhas. É entender que você não precisa ter certeza de tudo antes de dar o próximo passo. 

Hoje, ao olhar para a minha trajetória, percebo que a mudança de carreira não representou apenas a escolha de uma nova profissão. Ela também me ensinou a rever ideias antigas sobre sucesso, identidade e permanência. 

Não somos apenas os papéis que ocupamos, os diplomas que conquistamos ou as decisões que tomamos anos atrás. Somos aquilo que construímos dia após dia. 

Eu não acredito que todas as respostas apareçam antes do movimento. Às vezes, é durante a caminhada que conseguimos enxergar com mais clareza, ao testarmos possibilidades e descobrirmos o que acontece quando olhamos de outro ângulo. 

Em alguns momentos, mudar de caminho é uma forma de voltarmos a nos conectar com nós mesmos.